20 Abril 2012




todo dia o cotidiano atravessa o aparelho digestivo
estreito túnel que vai da boca ao fim

todo dia a mesma minhoca nos esfomeia
nos esfaqueia com seus contatos de metal

se por fora somos tato 
por dentro somos um cinza gorduroso

difícil de lavar

somos um curral para as tripas
curra para as ideias de alturas 

brancuras

ressurreições


A carne do passado é amarela transparência.
Repousa entre rusgas, coices e outros espinhos.

É uma carne incorpórea
- não morta -
pois que se abrasa na memória, na construção diária do ninho.

A carne do passado é escassa e por isso ouro,
fino ornamento do desejo no centro cercado de escuros.

A carne do passado reluz, avessa ao esquecimento.

Sabe que em sua pele sempre habitarão pássaros:
- os longos pássaros do futuro -

23 Fevereiro 2012

a pedra abstrata

sobre o peito uma pedra abstrata
ele trata a questão como se fosse penugem de dor

o peito abstraindo-se
cozinhando remorso em areia
ele campeia seus músculos, ossos, nervos na busca de algo que lhe faça homem

não esse homem que todos conhecem

outro
mais capaz de acelerar a concretude de fazer os gritos necessários

um homem totem de carne
sem a pedra, sem o caos habitual que definha seu futuro

um homem desnudo
desmascarado


mas a pedra abstrata não abstrai-se
continua sem trégua sobre o peito

as saídas apontadas sonharam-se vãs

o que tem é falta de ar
falta de olhar e micoses nas dobras

e a pedra
a pedra que cresce a cada dia
e que já esmaga o estômago e a boca.

16 Fevereiro 2012

Pela reabertura das negociações e pela paz no Atlântico Sul

Amigos, 
a questão da Malvinas está em voga novamente. Os donos do poder estão impondo novamente suas vontades. Recebi esse email da minha orientadora: Liliana Reales.
Quem quiser aderir ao apoio ao diálogo no lugar das imposições, pode passar um email para lilianareales@yahoo.com, que ela acrescenta o seu nome na lista. Abaixo o texto-manifesto de apoio, e a lista dos que já estão no movimento

Caros,
lhes envio o texto que surgiu a partir da iniciativa do governo argentino, através de seus consulados, de criarmos um forum de apoio ao posicionamente argentino perante a questao das Malvinas. Depois de uma primeira conversa entre Raul Antelo, Oscar Reymundo e eu, decidimos colocar o texto a seguir em movimento e pedir a nossos amigos e conhecidos assinarem em apoio ao dialogo, às negociaçoes e à paz no Atlântico Sul. 
Quem concordar, peço para enviar um e-mail nos autorizando a acrescentar seu nome na lista de adesoes.
Um abraço,
Liliana


Pela reabertura das negociações e pela paz no Atlântico Sul


A iminente comemoração dos trinta anos da guerra das Malvinas vem provocando uma série de ações e avaliações inéditas. Exercícios bélicos britânicos que não desdenham armamento nuclear; novas explorações de petróleo na região, que se somam à pesca predatória já empreendida por países como Japão, cujos efeitos, aliás, sentem-se em nossas mesas, dia a dia, com o sumiço de variedades outrora freqüentes. No entanto, a cobertura corriqueira da mídia insiste no caráter anormal das declarações do governo argentino, tirando relevância, ou mesmo naturalizando, a presença do Príncipe, em roupas de combate, no arquipélago. Estaríamos, nos dizem, frente a um clássico exemplo de contradições políticas em torno a uma soberania inconteste, questão à qual não é sensato dedicar nem tempo nem reflexão. Mas é possível qualificar o diferendo de Malvinas de contradição lógica? Mesmo Kant e, na sua esteira, filósofos como Galvano Della Volpe, partindo da diferenciação estabelecida pelo antecessor alemão entre a contradição lógica, que é sempre uma contradição entre conceitos, e a oposição real, entre os objetos do mundo, que é sempre uma disputa de poder, chegaram à certeza de que o antagonismo não pode ser uma contradição, simplesmente porque a contradição não pode acontecer entre objetos lógicos. A filosofia hegeliana, banalizada hoje pela mídia, torna os antagonismos sociais meras contradições, porque opera com um pensamento idealista que reduz a realidade a conceitos, quando o caso Malvinas nos ilustra, pelo contrário, algo mais importante ainda: que os antagonismos sociais não são contradições, nem oposições reais. Antes pelo contrário, são o limite de objetividade, o contorno do que significa acatar a lei social universal e, portanto, iluminam também o instante em que a sociedade descobre sua própria impossibilidade de constituir-se como ordem objetiva necessária.
Apesar de todas as exortações das Nações Unidas, a recusa britânica em sentar-se à mesa de negociações representa esse limite que o universalismo idealista, também conhecido como colonialismo, decide ignorar: as condições históricas de uma produção simbólica — o fato de o Atlântico Sul ter sido, tradicionalmente, uma área de paz, e assim precisa ser mantido — condições que são uma parte da produção histórica ela mesma.
Em plena I Grande Guerra, e em Buenos Aires, então comemorando seu primeiro Centenário de independência, Rui Barbosa constatava uma regra da modernidade ocidental, qual seja, a de que cresce, com efeito, a convicção de que os povos mais civilizados são os que mais lutam e investem em armamento, colaborando com o pensamento dominante no sentido de apresentar a guerra como uma divindade que sagra e purifica os estados. A recente fábula cinematográfica da Baronesa Thatcher vê nela uma mulher indomável, como se isso fosse uma vitória do gender. Contra o risco de que o ideal do estado se corrompa no ideal do dinheiro, ou diante da impossibilidade de ocultar essa inegável conivência, a única alternativa possível residiria na guerra. Portanto, a guerra, dizia Rui Barbosa em 1916, é um dos fatores essenciais da moralidade ocidental, uma vez que, graças a ela, a ética passa a se separar completamente da vontade, porque aquele que primeiro usar a força, sem medir o sangue derramado, terá sempre consigo, inexoravelmente, grande vantagem sobre o adversário.
Mas, cabe ainda sermos neutrais? Não se trata apenas de ser neutral, como Rui propunha aos países do Atlântico Sul em 1916. Trata-se, pelo contrário, de que os grandes acatem a lei e se sentem à mesa de negociações para garantirem a paz. Caso contrário, nunca terão sido mais válidas as palavras de Harold Pinter, em War: “The dead are dirt / The lights go out / The dead are dust”. Aprendamos da poeira do tempo.

Pela imediata reabertura das negociações e pela paz na região.

Adesões:


Raul Antelo (professor, Letras, UFSC)
Liliana Reales (professora, Letras, UFSC)
Oscar Reymundo (psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise-EBP e da Associação Mundial de Psicanálise-AMP; Florianópolis,SC)
Jorge Wolff (professor, Letras, UFSC)
Gustavo Caponi (professor, Filosofia, UFSC)
Maria Lúcia de Barros Camargo (professora, Letras; Pró Reitora de pós-graduação da UFSC).
Francisco Foot Hardman (professor, Teoria Literária, UNICAMP)
Flora Sussekind (Fundação Casa de Rui Barbosa, RJ)
Sandra Makowiecky (professora, Artes; Pró Reitora de graduação da UDESC)
Eduardo Sterzi (professor, Teoria Literária, UNICAMP)
Reinaldo Marques (professor, Letras, UFMG)
Verônica Stigger (escritora, São Paulo)
Maria Augusta Fonseca (professora, Teoria Literária, USP)
Javier Vernal (professor, PPGICH, UFSC)
Miguel Armella (professor. Florianópolis, SC)
Marlon Salomon (professor, História, Universidade Federal de Goiás - UFG)
Carlos Alberto Medrano (DNI 12011991 Blumenau, Santa Catarina)
Antonio Augusto Passos Videira (professor, Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Gabriela Lalane (cidadã uruguaia, Florianópolis, SC)
Silvia Espósito (psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise-EBP e da Associação Mundial de Psicanálise-AMP; Florianópolis,SC)
Analía Fridman (DNI 18.114.039)
Susana Scramim (professora, Letras, UFSC)
Celso Kraemer (professor, Filosofia, Universidade Regional de Blumenau, FURB)
Alejandro Labale (professor, Antropologia, Universidade Federal do Piaui - UFPI)
Luzia Marta Bellini (professora, Psicologia Social, Universidade Estadual de Maringá,Paraná)
Sandra Caponi (professora, PPGICH, UFSC)
Mauro Caponi (estudiante, Letras, UFSC)
Maria Teresa Santos Cunha (professora, História,Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC)
Marilene Weinhardt (professora, Letras, Universidade Federal do Paraná)
Itala M. Loffredo D'Ottaviano (professora, Lógica e Fundamentos da Matemática,Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP)
Eduardo Riaviz (professor, Psicologia, São Luiz do Maranhão; DNI 11489632)
Ana Chiara (professora, Letras, Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Pedro R. Jacobi (professor, Educação, USP)
Sandra Vasconcelos (professora, Literatura Inglesa, USP)
Vera Avellar Ribeiro (psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise; Rio de Janeiro)

07 Fevereiro 2012

O reparador

Amor novo. Ele mentiu-se reparador de tudo.

Ela, claro, aproveitou:

lâmpadas, chuveiros, pias, bacios de banheiro, portas, janelas e paredes.

Ele, no começo, não reclamava, pois ela sempre o amaciava antes com um amor de coxas, uma boca mais atenta, um gemido mais dentro. Reparou a casa da sogra, da madrasta, da tia com parkinson, da vizinha virgem e de quem mais ela pediu.

Um dia ele disse que estava cansado, que não queria atravessar a cidade para reparar a casa da prima em terceiro grau.

Ela, claro, amuou. Salgou demais a comida, manchou sua melhor camisa, negou-lhe os gemidos de que tanto gostava.

Por fim, ele atravessou a cidade para reparar as coisas da prima. Não voltou mais.

Eulália, a prima em terceiro grau de seu antigo amor, tinha artimanhas bem mais intensas e não lhe cobrava pelos serviços. Dizia que homem seu não iria fazer coisas inúteis.

Até onde se sabe continuam se amando sob as goteiras.


30 Janeiro 2012


hoje eu vi urubus atacando um cão morto
era a fome que eu tinha quando jovem

dentro do esôfago um bolo de desespero e saliva

havia dias em que tudo escapava
se esfarelava estômago a dentro

havia outros em que nada vazava

hoje
tudo é alimento

28 Janeiro 2012

os dentes afiam-se na carne
fiam-se - brancos e imaturos -
nos esconjuros perdidos da memória

os dedos adentram a pélvis
entre um grito e outro
o ouro do gozo
afrontando
o parco pouso do pecado

a língua

- que conhece a parte de trás dos dentes e dos dedos-

também repasta-se nas
finas salivas debaixo




27 Janeiro 2012

Tem pruridos, a casa
vergonhas de ausência

ela pouco se carnavalizou
tímida que é

A casa ainda está de pé
porque palavras pouco
sabem de seus corpos

palavras são crianças
entre a sodomia e
a santidade



16 Novembro 2011

éguas e águas



nesse meu todo corpo
enfeixado de sodomas

sei dos alfinetes que deliram nos parques
sei das luzes baixas que acompanham bocas
sei dos vermífugos dados pela mãe

tá com bicha esse menino

se ela soubesse que a ordem ora pro nobis era outra

era outro o deus nas alturas
as hosanas nas alturas

sei ainda do escuro discurso
das éguas baias
da baixa água que circula o ventre

nada contém o destino
a mão fêmea e taciturna resvala-se reto a dentro
curva-se intestina e adormece solitária

imune a vermífugos, imune a coincidências e esperanças maternas

a mão fécula fezes fácil do destino não sonha:
insonha-se: acre e álacre




Imagem: Renné Magrite

06 Outubro 2011

Eu vi o futuro

hoje
eu vi o futuro

de um lado um escritor com quatro dedos
lendo seu (meu) texto sem vírgulas e repleto de bucetas - (conchas, me disse depois um uruguaio)

de outro lado,
a pavonice dos teóricos e seus discursos pós ex pré
sufixados nas filosofias, arremessado que são (que somos) nos desvãos do discurso

hoje eu vi o futuro
de um lado a carnação caótica de um fodam-se vocês que me ouvem, eu sou escritor, eu posso vir aqui e falar as maiores inutilidades, eu posso não ter fundamento, eu tenho um texto e tenho só quatro dedos e sou publicitário e sou premiado e sou filho de escritor e sou um inferno nessa sua arrogância bem nascida

de outro
o riso amarelo dos que sabem ler, dos que sabem remexer avessos nos textos, mas jamais poderão ligar o foda-se sem que seus pares os condenem ao limbo da ingenuidade.

Nesse futuro que hoje eu vi, meu corpo era dois, duplo vórtice de um eu esmigalhado, proibido, calado à força.
Meu futuro transitou em 2 frentes, 2 pontes e eu no meio, no médio, sendo um e outro.

descendo
grau a grau
a escala dos inúteis

meu futuro visto hoje é uma nuvem tangente.

Choverá?
ou se dissipará ao primeiro sol mais forte?


27 Setembro 2011

"Sim!
Eu estou tão cansado,
mas não pra dizer
que eu estou indo embora.

Talvez eu volte,
um dia eu volto"

diz uma canção da minha idade.

Venho às portas desta casa para cantá-la
velho que sou
já não entro na casa há mais de mês

ninguém deu por falta, ninguém lamuriou-se com as portas fechadas,
com o veio seco desse velho poeta

um dia eu volto,
com o casaco de general ou de doutor

com a pulhice plena dos achaques à vida, um dia eu volto,

Breton, Bataille, Blanchot - BBB institucional
o que seria de vocês se acaso tivessem uma casa virtual?
o que seria de suas velhices incômodas se raramente entrassem nela, não por que vazia, mas porque o vazio estaria em vocês, mais, c´est vous, nessa sua língua sem ser e estar.

Pronto, mais um passo dentro da casa, mais uma limpeza dos corredores, os cantos ainda sujos, um dia eu volto, um sábado qualquer eu volto para (me) limpar a casa.

08 Agosto 2011

Poço. Pai

Poço. Pai.
(E demais memórias inventadas)

Ajoelhado,
à beira do poço,
o menino narcisa-se.

Mais do que um menino-narciso que ficava à beira do já feito, ele, junto com o pai, cavou seu próprio poço.
Lembra-se com candura: primeiro, o pai precisava saber por onde a água passava, qual o caminho secreto que ela tinha abaixo dos seus pés. Para isso chamava-se o Seu Lolo, que andava em todo o terreno com a forquilha na mão e ali, num canto qualquer do pasto, como que por milagre, aquele galho de árvore, fino, desprovido de qualquer força aparente, vergava-se em direção à terra, e dava a convicção ao Seu Lolo: pode cavar aqui.
– É de certeza, Seu Lolo? – O pai ainda duvidava, adulto. Ele não!
– Vamos cavar aqui, pai. – Não viu a forquilha quase sair da mão do Seu Lolo, tanta força fez para o chão. Tem água lá embaixo, sim.
O pai, quase bronqueado pela insistência do filho, por fim aceitava, e começavam a cavar.
Primeiro, a terra mole, escura, alimento para a grama do pasto, depois algo mais seco, arenoso. Seguiam cavando, cavando. A terra ia mudando. O fascínio ia crescendo à medida que encontravam folhas, gravetos, vestígios de tempos mais do que antigos.
– Já imaginou, pai, se a gente achasse um dinossauro?
– E lá isso existe? Nesse barro mole, tu só vai encontrar é folha morta mesmo.
E seguiam cavando. A umidade já aparecia na parede do poço, logo chegariam à água sagrada. Logo se confirmaria a ciência do Seu Lolo.
– Onde será que ele aprendeu a fazer, pai? Esse negócio de achar água assim, com a forquilha.
– Coisa dos antigamente, meu filho.
– Mas o senhor já tentou?
– Tem que ter o dom, ter o dom. Teu avô não tinha, eu não tenho, é bem capaz de tu também não ter.
E seguiam cavando. Ele um pouco mais triste, não ia ter o dom de achar água. Depois, um terreno argiloso. Esquecia um pouco do poço e ia ser escultor. A argila tornava-se barco, patos, cachorros, pessoas. Ria da feiúra de seus bonecos. Queria mesmo era cavar o poço, encontrar a água.
– Logo a gente chega no veio d’água, pode deixá!
E o pai cumpria o dito:
– Opa, chegamo!
Aos poucos, a água nascia, misturava-se ao barro, vinha subindo, suja, mas viva, dando razão à certeza do Seu Lolo.
– Amanhã tá cheio, aí a gente já pode ver se a água é boa mesmo.
Desde então, sempre vai ver o poço, ver se a água continuava presa e límpida espelhando-o viver.



Escrito num fim de verão, em 2008

30 Julho 2011

Minhas mulheres

no corpo de minhas mulheres
um oco baixo me acontece
a milhares de anos e léguas

minhas mulheres são medusas
talvez até fossem éguas se me permitissem a rima

minhas mulheres são granfinas
suas orelhas permanecem virgens a insultos

se lhes digo putas ouvem dálias
se lhes digo cadelas ouvem mar
e olham-me com carinho, como se de carinho fossem feitas

minhas mulheres rarefeitas em miséria, em virilhas
novilhas cruciadas
carnadas para meu prazer de homem

tenho remorso por comer minhas mulheres
sem lhes temperar, sem dizer que tudo não será abandono

que o dia seguinte é um útero
um vórtice de carne e travesseiro

e que talvez suas orelhas virgens possam entender, atender a ligação

30 Junho 2011

30 dias

30 cães e mães me corroeram
o esôfago: cartilagem acetinada que carrego dentro

são latidos e gemidos : meu filho meu dono meu tudo nao escape
não se perfume tanto no abandono

30 dias em que palavras foram doces amestrados
ametistas corroíras presas no jardim

30 estrangeiros estirparam meus ouvidos
e a falência de meus órgãos

sou um menino descampado
um príncipe pequeno
retificado na educação

e nos olhos ingênuos

30 Maio 2011

a 3000 metros acima
cinzas sabem-se pássaros

a 3000 metros abaixo
um vulcão natimorto
atrasa-me o peito

a 3000 mil metros mais abaixo
Lúcifer goza rios de lava
e ri das passagens canceladas

18 Maio 2011

A pressa

não direi que a pressa
é uma pedra

não sou Sísifo
embora pareça

a pressa me acontece
mais como a montanha:
subir e descer

a pressa é um disfarce
um silêncio em máscaras

que carrego feliz

a pressa me acontece
no lugar da perda

08 Abril 2011

Pro Mittere

É longa a manhã para um homem cuja pele é promessa. É uma espécie de desvio, de rio atalho. Um atoleiro azul. Nos outonos é pior: a beleza clichê, "olha que lindo", dizem. E a manhã segue alongada pela tarde, pelo crepúsculo, pela noite imperativa das estrelas.




O homem é apenas um futuro, um arcabouço, um pro mittere que se desdobra infecundo entre a esperança e a ausência do milagre.





Ilustração: Goya

30 Março 2011

El perro

I
a casa cercada por cachorros

por dentro
un perro se remorde

remorso ancestre

dos tempos em que
as quatro patas
sabiam a terra

sabiam os pelos da barriga,
do sexo, das costas.

II
a casa cerrada para os cachorros

à porta,
olham para o bípede
ladram ao traidor

el perro se ressente
senta-se no sofá
e escreve um poema elevado

homem que é

23 Março 2011




a fera que me come as carnes

não tem feriado: tem fome

e tem fácil
meus pedaços nobres
a serem oferecidos às visitas

e meus miúdos
para o ensopado da segunda-feira



Ilustração: Lucian Freud

18 Março 2011


439 vezes
a palavra vesga
agachou-se

acamou-se fêmea e foice

439 vezes
a palavra nesga tentou ser mais

não pode:
acalmou-se
mosca sobre a mesa

esperando a morte
vinda pela pazinha de plástico



Ilustração: Vangobot

08 Março 2011

a testa do homem
é um texto de fugas

a testa do homem
testa todas as idades

permanente contexto

estrada e saída
entrada e vida

a testa do homem
é uma verdade óssea

16 Fevereiro 2011

retorno
pródigo e filho
à terrapoema

retomo o perdão da palavra

ela é mãe e vaca
leite de todo jeito

remonto
as mulas que deixei
à beira do precipício

sei que estou
às vésperas de completar
a metade da vida

retorno
à casa de paragens

por mais que digam que não
um dia pode ser tarde demais

19 Janeiro 2011

Porcelana

Eis que virei compositor, com direito a clipe e tudo.
Letra minha, música de Rico Vogel, o guitarrista da banda Lady Murphy

15 Dezembro 2010

cinzas espinham o corpo
que frio fia-se sobre o outro

tempo dos avessos agora

a dor crespa da espera
e
a espera vesga do fim

logo ali o apocalipse
os quatro cavaleiros
e suas espadas festivas

logo ali um sol menor
mentindo-se verão

e a pele cada vez
mais branca

transparência
teu nome é o soco
que consigo pronunciar

22 Novembro 2010

Dia 23/11 - Lançamento Crônica de Gatos


Reforçando o convite para o lançamento do livro "Crônica de Gatos", uma parceria minha como a ilustradora Regina Marcis

Livro: Crônicas de Gatos Local: Estação da Memória (antiga Estação Ferroviária) Rua Leite Ribeiro s/n Dia: 23 de Novembro de 2010 - a partir das 18:30h
Aguardo vocês lá

abraços
Rubens

31 Outubro 2010

Clara Nunes - "À Flor da Pele" (Fantástico, 1978)

Meninas cantoras, por favor, aprendam como se faz...




ouçam, enquanto o poema não vem...

19 Outubro 2010

na ausência da palavra, o corpo.




"escrever é o pensamento endereçado, enviado ao corpo - àquilo que o aparta, àquilo que o estranha" - Jean-Luc Nancy

Ilustração: Charlie Bell

15 Setembro 2010

Crasso

0 corpo violentado no fogo
a cópula desdentada entre capins
os mastins catingando esteiras

a vida esfregando-se na morrinha cotidiana

o sol lá fora, dizem
azul lá fora, preconizam

aqui dentro os porcos chafurdam
fossem serpentes, fossem cavalos, rinocerontes
mas porcos e seu olhar vesgo
sua cambaleante banha e brancura

o sol lá fora, dizem
azul lá fora, preconizam

ouço as vozes
não tenho escolhas
só escolhos

levarei meus porcos à beira-mar

05 Setembro 2010

Vittório

a nudez me deflora
meu pau em estado vegetativo desarma a pouca hombridade que me resta
o reumatismo evidencia a ruptura
os rompantes duros de antanho são memórias
histórias inaptas ao devir

tenho medo e silêncio
nesse domingo fragoso

tenho vísceras presas
no quarto de banho
tenho carregosos espasmos quando nu
sei de meu corpo desinchado
dos poros ocos
das pleuras e cardiopatias
desse retumbar por dentro
entre catingas: boca estômago intestinos bexiga pés sovaco

tudo exala a violência incolor da morte
porta de vidro para o invisível

23 Agosto 2010

Crônica de Gatos


Aguarde...

Eu não sei muito bem pra que serve e nem como funciona, mas agora tô brincando de Twitter também. http://twitter.com/rubensdacunha Sigam-me os bons que todos seguirei também...

18 Agosto 2010

ando tão audaz. tão andaluz que nem acredito. ando tão saído. tão saudável que as palavras saturnam-se para manterem-se vivas. ando preocupado com esses sois internos destruindo o mofo. aquela agoniaculpadesgraça que revestia meus tecidos epiteliais e que fazia em mim um inverno particular está primaverando-se.

será que serei um desses velhos excursionáveis?


11 Agosto 2010

Caros:
eu e Marco Vasques estamos selecionando trabalhos para o primeiro número da revista de literatura e arte Osiris. A revista terá seção de poema, prosa, entrevista, ensaio, crítica, dossiê, artes plásticas, coleção de poesia e teatro. Quem quiser enviar material para o conselho editorial da revista pode remeter para vasques_marco@hotmail.com e rubensdacunha@gmail.com
Abraços
os editores
Rubens da Cunha
Marco Vasques

22 Julho 2010

o teclado do computado_ sem e__e
ele não sabe o que faze_
ele olha pa_a seu nome

_ubens
fica est_anho

estanho mesmo

sua lingua p_esa
pesa ago_a mais sem o e__e

é um pa_adoxo:
a esc_ita esvazia-se

a fala engo_da

um engodo qualque_
de quem não tem o que fala_
nem esc_eve_

no dia em que
o _ato _oeu a _oupa do _ei de _oma

01 Julho 2010

dentro do joelho
no entre as virilhas

na cova umbigo
talvez na quinta vértebra

entre um e outro ouvido
no prepúcio

calcanhar
dedos da mão
pelos da cara

no curvo coração
ou no reto

no diafragma
ou na testa

sob a pápebra
atrás da retina

vasculhe, vasculhe
esvazie as veias se preciso

limpe o intestino
os rins
o fígado
a glote

vigie o tutano
os nervos

vasculhe, levante
sacuda, abra

pulmão
testículos
próstata
sola do pé

não desista
insista, vasculhe
perscrute
que é palavra melhor

que está em algum lugar
não cague
não cuspa
não vomite
não retire
ceras
ramelas
os sem nome do nariz e dos baixos

deixe tudo dentro
até encontrá-lo

quando acontecer
extirpe
rasure

e o abandone ao próximo corpo

16 Junho 2010

reverberam em mim pedras, anzois, aguilhões
tenho erros e vísceras,
tenho materia mas me faltam penhascos

é o medo de ficar oco
de partilhar sombras e rasos

sou um mamífero,
melhor, inseto,
melhor, peixe qualquer dentro de um rio poluído,

daqueles que geram admiração nos passantes:
param a beira do rio e pronunciam:
pobrezinho, nada feliz no rio que imundamos.

Dou saltinhos por sobre a água
e agradeço à breve contemplação humana.

02 Junho 2010


O beijo que me deram trazia dentro um pranto, um toldo verde, argúcias. O beijo que me deram fez-se permanência, astuta enzima por dentro da boca. Cuspo fora o beijo que me deram. Talvez ainda reste algum tempo de espera, algum tempo para ficar diante do espelho sonâmbulo. Tenho a boca macerada pelo beijo que me deram. Tenho a memória massacrada também: primeiro a mão espinhando a cintura, depois o calor, depois a boca dizendo-se água e vazando sobre mim. Depois a solidão crivada.
Sou um homem triste com um beijo entravado, entrevedo, na mucosa.

Ilustração: Pablo Picasso

19 Maio 2010

Ciúme

O rosto do ciúme foi moldado

em escuridão, víbora e ofensa.

Não existe artesão capaz de criar

tal espécie de ordem: tão escudo,

tão cristal, tão imersa nos fantasmas

da beleza, tão pressa ou precipício.

Deter-se neste rosto: remoer-se

como se fosse carne nos açougues.

Atar-se ao pescoço da discórdia:

corda intumescida no desprezo

de todo o tempo ser quase inocente,

quase sempre débil nos levantes

que o amor orquestra, antes de morrer

no exílio infalível do esquecimento.

11 Maio 2010




o remorso
não atinge corpos mergulhados
em coitos esquivos

festim
Hades
fundo pecado

Avessos ao medo
os hóspedes da cidade
matizam-se em azul e fantasia

Fantasmas exteriores
desconhecem o convivas
que estão para o amor
como aeronaves para o ar:

aptos à queda.



Imagem: Andre Masson

01 Maio 2010

Sem anestesia

- ... ele disse que tava doendo.
- E precisava fazer isso?
- Mas... ele disse que tava doendo.
-
Tá! mas não tinha alicate, chave inglesa? Qualquer merda para arrancar esse dente?
-
Nós tentamos, mas o alicate não coube na boca, aí ele falou: “corta”...
-
E você cortou? Tá maluco?
-
Mas ele pediu! Eu ainda perguntei: tem certeza?
-
E ele respondeu o quê?
-
Bem, se ajeitou aqui sobre este tronco e falou: “Pode meter o machado no pescoço”

19 Abril 2010

O vaso

Distraído sempre foi. Naquele dia não. Viu uma bola de barro cair, olhou para cima e, graças a Deus, parou. O vaso estatelou-se na sua frente. Ainda procurando quem foi o desgraçado, só ouviu da janela do quarto andar um peloamordedeusmoço, esperaqueeuvouaí, esperou, a dona veio esbaforida, pedindo desculpa, bateu no vaso sem querer, tentou pegar, não conseguiu,
Machucou? Tem certeza? Sobe para tomar água com açúcar.
Aceitou, subiu, A moça trouxe água com açúcar,
Me chamo Maria e você?
João, João Jesus de Deus,
Por isso tão protegido,
Mora sozinha?
Só eu e Deus,
Não seria bom mais um Deus por aqui?

Maria nunca mais derrubou vaso algum da janela.

12 Abril 2010

Enquanto o poema não vem

um pouco de crítica social. Video encontrado no fundamental Vivo na Cidade




Classe Média, por Max Gonzaga

07 Abril 2010

Voz de Mulher

para acompanhar a minha cronica crônica "Cantar é um atravessamento" que vocês podem ler Aqui

Edson Cordeiro canta a música de Sueli Costa e Abel Silva

19 Março 2010

Rins

Fincou dois pregos nos rins.
É um pouco de comiseração, um pouco de estética, me disse.

Passo a língua em suas costas.
É um pouco de ferrugem, um pouco de culpa, lhe digo.

E nos amamos crucificados.
Cristos desnudos sob o olhar dos cachorros da família

Finjo não perceber que a frieza do metal me perturba os mamilos, a boca,
o aparelho de meus dentes, meus olhos não pregados.

Ri. Pede mais um pouco de atenção e saliva.
Mistura aqui com esse sangue, me diz.
E se espreme, se exprime em carne viva, bem onde os pregos entraram.

E me filtra com seus rins pregados.

Vou fazer falta, ameaço.
Ri.
O mijo morno adorna os cantos da cama.
Cárcere líquido.

e dormimos, púrpura, azul,
vazio.

No lugar dos rins, feijões.

10 Março 2010

Vazio

o estômago oco
- não fome -
é outro buraco

a auréola perdida

pescoço livre
caibro e corda
são esperas

o pão engolido
distrai o abismo

pela janela
um pedaço de sol
destrói a manhã

03 Março 2010

Métrica da Pele


o corpo senzala a solidão

tudo reverbera
pérola cama folhas dedos

tudo recende ouro
outro tato testemunha
o dúplice o códice
o vórtice esmigalhado

a métrica da pele
amanhece imprecisa
esquece as saídas
as sombras do dia

e escande-se
gato sorte amor
por sobre os lençóis

e dorme de novo
em noivo silêncio
dentro da luz nua

do futuro



Foto: Amanda Spitzner no Exploding Plastic Inevitable

16 Fevereiro 2010

Retina de Arame

Ana quer meu relato
meu ato de sangue
meu casto incenso

Ana quer defumar-me
feito porco
em tiras, em postas
em respostas que não posso dar

pois Ana fantasma-se há anos em mim
suas palavras chilenas
seu nome completo
Ana Maria Fuenzalida

lidam com minhas fraquezas
meus silêncios impuros

lamento tanto esse muro
esse Andes de carne que faz de Ana
algo maior do que posso ver

talvez tudo isso
seja um tanto de distância
um tanto de desgosto perfurando
minha retina de arame

Ana talvez nada seja
além de um pássaro sobrevoando o Pacífico

além de uma mulher pedindo meu relato
o obtendo apenas
o meu pouco poema

30 Janeiro 2010

Relato

Para Adriana,

Estive numa praia quase deserta com nome estranho, mais ao sul de onde vivo. Eu soube que baleias invisíveis a visitam nas manhãs de janeiro. Fazem filhos e gritos na rebentação. Só quem pode ver e ouvir são as vacas que pastam nos arredores. Elas levantam a cabeça, param de ruminar, como que exigindo silêncio e ficam embevecidas com o sexo e a voz das baleias. As pessoas do lugar já se acostumaram. Quem chega de fora admira-se com a postura das vacas e tenta a todo custo ver e ouvir baleias também, mas nada consegue além de salgar-se no mar bravio. Foi quando eu vi uma mulher engarrafar palavras e jogá-las ao mar. Perguntei o que estava fazendo e ela me respondeu:

- Quero que as baleias engulam minhas palavras, se acostumem comigo, saibam quem eu sou, pois no último dia de janeiro eu vou embora com elas.

Amanhã, eu voltarei à praia. A mulher disse que eu não preciso levar bagagem nenhuma.

Palavras emprestadas 16 - Nelson de Oliveira

Levando-se em consideração tão-só a qualidade, há, mais uma vez, dois tipos de escritor: o medíocre e o genial. O escritor medíocre é fácil de reconhecer. Basta ler duas linhas, dois versos, e lá está ele: inteiro, acabado, cheio de viço. Em cada sílaba a mesmice juramentada. Já o escritor genial não é fácil de reconhecer. Dele não basta ler duas linhas, dois versos. Cada página, um ponto de interrogação. Será que é? Será que não é? Titubeamos linha após linha, verso após verso. Aborrecidos, deixamos sua obra de lado. Dias depois, quando tornamos a ele, uma vez a insegurança. Será? Trocamos impressões com os amigos - tão indecisos quanto nós - e... sim! Trata-se de vinho, não de água. Soltamos foguetes e transformamos o novo gênio em patrimônio da humanidade. Mas por que o barulho? A genialidade é um acidente biológico que não deve ser perseguido a qualquer preço. Tanto o escritor medíocre quanto o genial procuram com sua obra granjear a estima da tribo. Por isso gastam apenas parte do tempo escrevendo. A outra parte usam para desocupar as estantes, a fim de colocar no lugar das obras do passado a sua. Algumas destas novas obras injetam sangue puro na cultura. A maioria, não. Quem se importa? Amor e morte, sexo e assassinato - os mesmos cinco ou dez textos primordiais têm sido reescritos e descartados há milênios. Descartados não, devorados. O nome do monstro? Literatura.

Nelson de Oliveira, in O Século Oculto e outros sonhos provocadores. Ed Escrituras.

22 Janeiro 2010

já posso cortar os pulsos, mãe?

Vou até deixar desconfigurado mesmo...





17 Janeiro 2010

Presente

Enquanto não arranco de mim texto algum para hospedar nessa casa,

Mara me faz feliz presenteando-me com um texto.

14 Janeiro 2010

André Dahmer me usando

talvez eu não seja tão cínico quanto o personagem da tira, mas adorei ter meu nome como um dos personagens do quadrinista que eu mais admiro.


08 Janeiro 2010

Revista Zunái

A Zunái - Revista de Poesia & Debates publicou uma seleção de seis poetas catarinenses com apresentação de Marco Vasques. Aos que aqui se hospedarem convido para uma visita à Zunái e ler um pouco dos poemas feitos nessa terra mais ao sul:
os poetas são:

Fernando José Karl ( cujo blog Nauttikon também merece a visita)
Ramone Abreu Amado ( o blog Pausa da Poesia não está atualizado, mas possui um arquivo que irá surpreendê-los)
Dennis Radünz
Rubens da Cunha
Péricles Prade
Rodrigo de Haro

06 Janeiro 2010

I

Lá fora
a fêmea morte

aqui dentro
400 gritos

no limiar
um homem nu
nauseia-se

entre
moscas e detergentes







24 Dezembro 2009

A Gorda Sombra


A gorda na janela tampa o sol da manhã.
Nanô, o namorado, sempre lhe pedia:
fica na janela que eu quero te ver dando sombra à minha vida.
Todos os dias, a gorda postava-se à janela e sombreava a casa.
Só que para Nanô não bastava ver sua amada de costas.
Não bastava receber dela o frescor de sua sombra.
Nanô queria possuir aquela mulher como nenhum outro poderia.
Ele queria ser aquela mulher.
Tanto era o amor, que certa manhã ensolarada, a gorda sentiu um toque diferente.
Não o costumeiro toque de Nanô.
Ele pediu calma, calma que hoje vai ser melhor.
Aos poucos, Nanô foi se encostando, se amalgamando, se fazendo a gorda.
E ela gozando, suando, não pára, não pára.
Lá fora, o sol brilhava alto.
Dentro da casa, um corpo gordoamoroso passou a iluminar as paredes, os móveis, as roupas.

E a vida ali nunca mais conheceu a noite.


Ilustração: Botero

22 Dezembro 2009

Alcione - a voz

Alcione é a única cantora brasileira que consegue transformar qualquer canção que tenha melodia básica e versos clichês em algo grandioso. A voz de Alcione é aquela mistura rara de técnica, força e paixão. E, mal ou bem, quando se ama esse tipo de canção que rima amor e dor, coração, emoção e paixão é muito mais eficiente.

Aqui, Alcione canta as agruras de quem não consegue se livrar de um amor manipulador. Quero ver quem tem a coragem de atirar a primeira pedra quem ainda não viveu à sombra de alguém...




Nesse, o clássico absoluto na mesma linha "dependente total do teu jeito de ser

"


e para finalizar o post humilhação amorosa, outro clássico

14 Dezembro 2009

Baladas / Irrealidades

Baladas / Irrealidades é um blog de Ariadne Velasco e nos joga contra à parede:
por um lado poemas muito bem escritos, por outro, fotos da própria impondo sua aparência
de moça curvilínia, que à primeira vista passaria longe do esteriótipo de poeta.
é isso, vamos às baladas e às irrealidades, e de quebra, quebrar alguns preconceitos...

12 Dezembro 2009

Uma vida em 13 degraus - Décimo Terceiro degrau

Retiram-me da cela. Talvez eu já tenha morrido. Tratam-me como morto. Ouço um ainda bem, menos um para incomodar. Ouço barulhos demasiados. O que será que esse fez? acho que esse era aquele que matava mulheres e gozava nelas. Credo. Como tem gente imunda nesse mundo. Pois é, mas era louco, imundo e louco. Nunca fui louco, estou no décimo terceiro degrau de minha vida, nunca fui louco, tudo o que eu quis era um pouco de prazer. Que culpa tinha eu se meu prazer era sangue e esperma, se era a morte do outro que provocava meu gozo. Levam-me para não sei onde. Necrotério. Mas ainda vivo, ainda estou prenhe de vontade de viver, e queria tanto mais dois degraus, só mais dois, um sepultamento e uma ressurreição. Voltar melhor, mais ameno, quem sabe? ou pior, mais inteligente, pois o que me faltou foi inteligência para apagar os rastros. O que me faltou foi perspicácia de que os homens tem desejos mas não os cumprem, tem vontades mas não saciam nenhuma delas, ficam apenas caçando quem consegue por em prática o mais fundo de si. Eu consegui. Mesmo tendo quase nada entre as pernas, eu consegui ser homem e gozar em outros buracos para além do natural. Eu consegui, quantos conseguem isso? Eles estão rindo, pegam Nele e gargalham, coitado, não é à toa que virou psicopata, com essa mixaria, até eu. Saiam daqui vampiros, gentalha menor, o que pensam que eu e Ele somos? Vísceras? eu não estou morto, tenho mais dois degraus, ouviram, tenho mais dois degraus para alcançar o céu. Eu não posso ficar preso aqui, aqui não é meu lugar. Verônica, vem me salvar, Simão, Simão, eu não te matei, eu te deixei livre, vem me salvar, vem me dar o direito a uma ressurreição. Começam a me cortar, eu não morri, grito, grito, e não me ouvem. Se eles fossem iguais a mim, entenderia, cumpriria meu papel de vítima, mas eles me cortarão, me examinarão, e não vão derramar sua porra nos meus buracos. Eu mereço isso, eu mereço que alguém me fure e goze na minha ferida, eu mereço estar do outro lado, já que não terei mais meus dois degraus, já que não serei sepultado nem ressuscitado, serei apenas um corpo jogado fora. Lixo, nada, estrume, comida para as cobras-cegas que eu matei, eu mereço porra nas minhas feridas. Rasguem-me a boca, encham meus buracos de esperma, o que estão esperando, parem de rir, parem de fazer gracinhas com Ele. Ele sou eu. Eu sou Ele, não entendem? Fui o que fui porque Ele me fez assim, essa mixaria, esse nada, esse diminuto me fez assim. Saudade da mãe e da filha. Saudade daqueles dias de contentamento aparente. Minha mãe, onde anda? e Meu pai, será que eu herdei o nada entreaspernas dele? queria ter gozado no meu pai, era isso que eu precisava ter feito. Se em vez de despedaçar insetos, se em vez de furar cabras, bezerras, putas eu tivesse furado meu pai, gozado nele, atribuído a ele o que sou, eu teria meu dois degraus, eu seria mais feliz. Eu não estaria aqui, aberto que nem um porco, sem grito, sem porra na ferida, sem gozo nenhum. Sem meus quinze degraus.

11 Dezembro 2009

Uma Vida em 13 degraus- Décimo Segundo Degrau

Estou fraco. Hoje é provável que eu não atravesse a noite. Ninguém me olha mais. Peço algum carinho, alguma violência, nada fazem. Afastam-se, dizem que sou um fantasma, aparentado com o diabo. Hoje vou morrer. Estou no penúltimo degrau. Sei disso. Lamento um pouco, pois eu queria ter uma vida com quinze degraus. Ter ainda a chance de sepultamento e de recomeço, mas não vai ser possível. Se pelo menos eu tivesse mais um buracosangue para enfiá-Lo. Imagino, não basta, mas é o que resta.

09 Dezembro 2009

Uma vida em 13 degraus - Décimo primeiro degrau

Condenaram-me a não sei quantos anos de prisão. Não interessa. Estou aqui, no meio de quarenta e oito iguais. Cada um deles extorquiu da vida o que pode, e por isso tá pagando o preço. Eu, que debilitei qualquer vida que tenha se aproximado de mim, estou aqui, pagando de bom grado o preço. Sinto falta de sangue, isso sinto. Sinto falta da pequena ferida no peito de Verônica, mas nada que Ele não suporte. Quando a falta aparece, aperto-o entre os dedos e Ele goza, fingindo-se dentro de uma morte qualquer. É o que basta para a alegria.

08 Dezembro 2009

Uma vida em 13 degraus - Décimo Degrau

Pegaram-me. Eu deixei? Não sei mais. Só sei que me pegaram. Deixaram-me a primeira noite troncho, torto, ainda vivo e pedindo mais. Pela primeira vez eu tive resposta. Ele cada vez mais duro, parecia até maior, quanto mais me estocavam, mais eu gozava. Toda a pena que tive por mim, sumiu. Eu era homem agora. Imolado. Cordeiro, finalmente.

07 Dezembro 2009

Uma vida em 13 degraus - Nono Degrau

Quando olhei as duas, atravessadas pelo espeto do churrasco, com minha porra sobre os beiços. Chorei. Mais uma vez me compadeci de mim mesmo. Foi minha terceira e última queda.

06 Dezembro 2009

Uma vida em 13 degraus - Oitavo Degrau

Não sei bem como aconteceu. Moça de família. Eram apenas ela, empregada doméstica e a mãe, empregada doméstica aposentada. Passei a frequentá-las, moravam a quinze pontos de ônibus da minha casa. Não sei bem como aconteceu. Primeiro a filha e seu cabaço. Depois a mãe e seu cu em chamas. Eu e Ele nos saciamos com as duas. Uma a cada tempo. Com as duas juntas, somente quando o espeto do churrasco atravessou-lhes o estômago. Choraram. Eu e Ele gozamos sobre aquelas caras molhadas. Lágrima e porra. Gosto bom.

05 Dezembro 2009

Uma vida em13 degraus - Sétimo Degrau

Depois de Verônica, fiquei três estações sem ninguém por perto. Autômato. Meu sétimo degrau foi de solidão austera, celibatária. Quer dizer, vez ou outra encontrava um igualsimão no escuro de um parque, ou uma cópiaverônica nas esquinas de sempre. Mas o celibato era por dentro. Eu não sentia mais nada. Olhava para Ele e nem raiva eu sentia. Foi minha segunda queda. Tive as mãos, os joelhos, os cotovelos e o queixo ralados. Para sempre.

04 Dezembro 2009

Uma vida em 13 degraus - Sexto Degrau

Verônica. Puta de esquina. Riu quando viu, só isso? ainda tenho esse risopergunta na cabeça: só isso? sempre tive só isso. Disse que tudo bem, meteu a boca e me fez gozar. Se tivesse um sangue e uns gritos de porca iria ser melhor. Depois enxugou minha testa, gosto de você, é meio louco, mas boa gente. Fiquei com ela quinze estações. Pena que não resistiu ao corte. O sangue humano é mais carinhoso que o suíno, assim como a ferida no peito de Verônica era bem mais apertadinha que sua ferida natural. Finalmente eu tinha achado uma forma de fazer com que Ele parecesse grande.

02 Dezembro 2009

Uma vida em 13 degraus - Quinto Degrau

Eu consegui me mudar para a cidade. Os bichos tinham ficado para trás. Só Ele, pequeno e cada vez mais esfolado, tinha vindo comigo. Pudesse O deixava também. Na cidade, gente demais, andanças demais. Pela primeira vez poderia, talvez, encontrar um igual, no tamanho e na fome. Encontrei um apenas Simão, irmão no tamanho. Ajudou-me um pouco, depois o afastei, queria amor, casamento, queria que eu assumisse algo que nem sei bem o que era. Menti para não matá-lo. Deveria ter feito. Se eu matasse quem primeiro me ajudou, talvez eu fosse mais homem, mais coragem.

01 Dezembro 2009

Uma vida em 13 degraus - Quarto Degrau

Minha mãe disse que estava preocupada comigo, parecia que eu não andava comendo direito. Menti vitaminas, proteínas, glicídios, teu filho come muito direito, mãe, não se preocupe. Como era de seu feitio, ela não se preocupou.

30 Novembro 2009

Uma vida em 13 degraus - Terceiro Degrau

Apesar do tamanho inconveniente, Ele expelia espermas demasiados. As mãos cansavam-se em esfolá-lo. Os buracos das cabras e bezerras também. Nesse degrau aprendi a gozar nos cortes. O dos porcos era melhor, macio por causa do toucinho. Eu amarrava as quatro pernas, enfiava a faca até o coração, enquanto o porco gritava e se esvaía em sangue eu O enfiava naquele corte e também me esvaía em sanguebranco. Foi nesse degrau que eu caí a primeira vez: um dia tive pena, muita pena de mim e do porco.

29 Novembro 2009

Uma vida em 13 degraus - segundo degrau

Os pelos vieram. No entreaspernas Ele quase não cresceu. Passei a investigar os dos vizinhos, todos eram grandes, marrons, robustos na forma e na cor. Mas o meu não, o meu murchou-se em dobras feias, em muita pele e pouco corpo. Se Ele tivesse crescido à medida de minha inveja. Mas não, Ele ficou lá, esturricado, diminuto, brancoazedo, cruz que carreguei sempre. Degraus acima. Nesse tempo, tomei gosto pelos sapos, cobras cegas, mussuns, filhotes de passarinho. Tinham sangue, esperneavam, mas não emitiam sons quando morriam, quer dizer, menos os passarinhos, para evitar que piassem eu os entupia primeiro com areia, depois lhes abria um pequeno corte na barriga e via o sangue escorrer. Era bom. Nesse degrau eu aprendi a matar e a esporrar silenciosamente.

28 Novembro 2009

Uma vida em 13 degraus

A vida é uma escada. A minha escada teve 13 degraus. Sangue, pus, babas, espermas, lágrimas, merdas, mijos e demais líquidos meus e dos meus. Todos mancharam-me os degraus, deram-me algum afinco, algum motivo. Nos próximos 13 dias vocês me lerão aqui resumido.

Aviso aos sensíveis: não foi uma vida fácil, como também não será fácil me conhecer...


Primeiro Degrau:
Eu condenava. Criança percebi isso: eu condenava. No primeiro degrau, as asas dos butucões, dos marimbondos, as cabeças dos besouros, as manchas alegrinhas e insuportáveis das joaninhas e borboletas. Eu condenava. Cada bichoinseto que eu via e conseguia capturar, requintadamente eu açoitava, depois espetava-lhes finos alfinetes, até que parassem de se mexer. Criança eu sabia que o treino deveria começar cedo, deveria começar pelo ínfimo, para depois alargar-se até o máximo, até o humano, quem sabe...

11 Novembro 2009

ida e volta em três atos líricos


1
ouço a volta
a carne de pescoço
o osso buco

meu embargo nada faz
eu nado amargo no sangue

enquanto nossas bocas se cruzam
como se fossem cães, escadas,
ou venenosas bocas cristãs

2
arrependo-me de cada passo
de cada pastagem que me fiz

3
ouço a saída
herdo o dente agudo
a saliva
o sorriso malcriado

acrescento tudo
às minhas pernas domésticas
e caminho insone

cama adentro

calmo

até a próxima mentira
Ilustraçao: Alberto Giacometti

09 Novembro 2009

Monica Salmaso em "Beatriz" de Chico Buarque

Eu vi ao vivo no Festival de Música de Itajaí.




Algumas cantoras saltitantes e contorcionistas deveriam passar horas ouvindo isso até aprender que para ser cantora a voz tem que ser protagonista, sempre
nada corroer
nesses dias
tímidos

a solidão
- animal inapto -
esquiva-se


e mantém a ordem
como se corpo fosse

30 Outubro 2009

POETAS NO SINGULAR

Parte da literatura catarinense tem uma nova casa na rede. O site POETAS NO SINGULAR.
Dez poetas estão lá mostrando a diversidade da poesia feita por aqui:

Antonio Carlos Floriano
Dennis Radüns
Ryana Gabech
Fernando José Karl
Raquel Stolf
Marcelo Steil
Rubens da Cunha
Valdemir Klamt
Cristiano Moreira
Marco Vasques

No site você pode ter uma amostragem dessas dez poéticas. Há também o blog www.poetasnosingular.blogspot.com que acompanha as últimas novidades literárias.

Cheguem por lá...

28 Outubro 2009

Palavras Emprestadas 15 - Al Berto

A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
e língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo.


Al Berto
In: O Medo - trabalho poético 1974-1997

Livro que a Alessandra me mandou de presente, a quem agradeço por ter me jogado dentro de uma obra lancinante.

19 Outubro 2009

sul do brasil. dias cinzas demais. mudei de cidade mas é como se não tivesse mudado. às vezes o silêncio estaciona dentro. e fica esperando as águas passarem. tem medo de pegar gripe, o silencio. medo de friagem. mas é primavera, quase verão, tento convecê-lo: saia de mim. e ele se esconde cada vez mais fundo, mais dentro, atras do pulmão.
deixa eu aqui, é quentinho...
eu rio. olho a vida lá fora e deixo o silêncio abrigar-se em mim, pois sei que quando eu precisar ele também me cederá seu pulmão.

27 Setembro 2009

Tragédias breves e anônimas VII

Ela ficava sempre na soleira da porta da frente. O mundo atravessava seus olhos. Ele não gostou. Mulher minha não fica emperada em solera de porta nenhuma. No lugar da porta e das janelas, construiu mais paredes. Qué ficar olhando pra fora, olha aí pros fundos, aproveita e cuida das horta.

24 Setembro 2009

leitura

lia
sentado numa pedra
a vida breve

tempo demais sem a pele de Léa
sem os liames de seu corpo azul

lia
sozinho
as passagens

dentro
paisagens nuas
desvestiam-se

saudosas dos adentramentos de Léo
sem o verbo amar

lia
para esquecer
novenas
paixões
olhos de cão

e para nunca mais encontrar
os dois perdidos
em seu sangue inóspito

10 Setembro 2009

Tragédias breves e anônima VI

Esculpiu o boneco à sua imagem e semelhança. Caprichou no formato dos lábios. Deteve-se também num pequeno defeito no dedo anular direito. Tudo estava de acordo. O boneco era a sua cara. A dor aguda. Um último pensamento: eu consegui. Dias depois encontraram o corpo. Ao lado, um boneco com uma agulha enfiada no peito. Os legistas relutaram muito, mas, por fim, aceitaram o suicídio como a causa da morte.

24 Agosto 2009

Terras de Gabriel

Aos que aqui se hospedam, convido-os para povoarem também as TERRAS DE GABRIEL da poeta Maeles Geisler.

22 Agosto 2009

Tragédias breves e anônimas V

1
O cinema no centro da cidade. Cartazes velhos.
Lá dentro pode ser o homem que não deve ser.
Alguém se ajoelha a sua frente, reza gostoso o pecador.
Quando sai o sol avermelha um pouco mais a culpa.

2
A boca ainda úmida do último esperma.
Seis horas dentro do cinema.
Com fome ainda, João espreita, escolhe, ajoelha e continua sua oração, sua ração diária.

19 Agosto 2009

Tragédias breves e anônimas IV


Enterrou a esposa no fundo do quintal há dois anos. Colheu ontem as primeiras tangerinas. Admirou-se com a doçura. A natureza é mesmo estranha, como pode dar tangerinas tão doces quando o adubo era de uma azedume só?

14 Agosto 2009

Tragédias breves e anônimas III

Pela fresta da porta: a nudez.
- Pai gosta tanto de mim, né mãe?

05 Agosto 2009

Inspirado em fatos reais 2

nesta manhã
tudo apareceu azul
na minha vida-jacaré

eu tão acostumado a cinzas
e demais escuros sem ordem

enfeitei-me
azulescente

e agradeci
por uma morte tão linda



eis a triste inspiração

Capítulo VIII

tudo se verdiferencia
ao amanhecer

a mãe antes de retirar a água do poço
olha a si mesma lá embaixo

desmanchada imagem de mulher
culpa desordem calafrio

joga o balde
puxa a água
bebe a largos goles

Olha ao redor
o filho ajoelhado diante dos porcos

é Deus pródigo pedindo perdão

22 Julho 2009

Inspirado em fatos reais

anda carcomido por noites azedas



frágil e belo



feito um jacaré com um anzol no estômago

08 Julho 2009

Capítulo VII



há o silêncio no buraco-ilha

a mãe cozinha restos, miúdos,

o filho enxergaouve a fome

sobre os corpos

se adensará uma noite de glória e susto


Ilustração: Henrique Matos

23 Junho 2009

Tragédias breves e anônimas 2 - Bodas de Ouro

Mente, velha! Diz que nada está apodrecendo e caindo. Mente! Diz que nos adianta essa tua cara esticada à faca, esse meu tesão levantado à pílula. Mente, velha! Diz que ainda somos feitos da carne nova que nos fez tão felizes.

18 Junho 2009

Tiago e Iara

Eu e Clotilde Zingali publicamos uma novela em 8 capítulos no Jornal A Notícia. Utilizamos nossos espaços de crônicas e demos vida a Tiago e Iara.

No blog da Clotilde - http://clotildezingali.blogspot.com/ - os oito capítulos dessa experiência que nos alegrou bastante. Aos que aqui se hospedarem, convido para uma visita ao blog de Clotilde.

17 Junho 2009

Capítulo VI

Sabe nada do mundo lá fora.
O teu pai sumiu nesse mato.

Ele nunca teve vontade de conhecer o outro lado. Às vezes fica em pé, bem no meio do roçado.

Gira em torno de si mesmo e observa tudo ao seu redor.

Nasceucresceu preso nessa jaula de montanhas.

Passa as mãos pelo nariz, nas orelhas. Ali queima alguma diferença.

Ô mãe, porque eu tenho essa cara de bicho?
Que cara de bicho, meu filho! onde já se viu isso?

Eu vi. Quando fui tirar água do poço. Lá embaixo não apareceu um homem.

Apareceu um bicho. E essa vontade que eu tenho de andar com as mãos no chão? E essa orelha pontuda? E esse agarramento que eu tenho com as crias aqui do sítio? Fala mãe, fala pra mim de quem eu sou filho?

13 Junho 2009

Tragédias breves e anônimas 1 - Irmãos

- Desce daí…
- Vem me tirar se você é homem.

No velório do irmão mais novo:
- Desculpa mãe, mas foi ele quem me provocou.

07 Junho 2009

Capítulo V

O tempo se encarrega dos gemidos.

A mulher vez ou outra olha a saída.

Poderia ir. Deus ia me ajudar. Fugia daqui. Velha demais. O marido foi.

Ela olha os pés. Gravetos de carne frouxa.
Prepara o pão de milho. Tudo feito ali. Tudo feio nesse buraco ilha.
Certa vez comeu pão branco. De trigo.

Sonha ainda.

O filho cuida da roça.
Anda cada vez mais torto.
Não só as costas.

Ontem veio dizendo que a terra o chama todos os dias, por isso tem que andar de quatro, para por os ouvidos mais perto do chão.

Não posso perder, mãe, não posso perder o chamado da terra.

30 Maio 2009

Capítulo IV

Mãe e filho.
Animais nos seus lugares.

Cumprem as funções estabelecidas. Envelhecem.

A mulher, viúva, encarde-se.
O filho focinha os cantos da casa.

Já pareceu mais bonito aos olhos da mãe.
Agora que desponta em pêlos e catingas vindas pela idade
a mãe começa a preocupar-se:

Danado esse menino. Crescido assim, logo ganha mundo e me deixa sozinha. Tenho que fazer alguma coisa.

A mulher chora pelos cantos.
Ladainha dia após dia.

E Deus pai perdoai esse teu filho sozinho
e Deus pai dai a nós saída desse mundo

O filho engraça-se cada vez mais com os bichos.
Vem dormir menino.
Vou não. Hoje fico aqui com a égua e as galinhas.

23 Maio 2009

Capítulo III

Mato adentro.
O homem perscruta o chão atrás de rastros, restos, vestígios que a porca tenha deixado.
Enquanto procura, também vai deixando seus vestígios para trás.

Uma passada mais forte amassando o arbusto.
O facão cortando os cipós, destruindo as bromélias.

Por um tempo ainda foi possível segui-lo.
Depois abandonou o facão, alguns restos de roupa ainda resistiram espetados nos galhos espinhentos dos pés de silva.

Depois mais nada foi visível.

A porca retornou no final do dia.

16 Maio 2009

Capítulo II

Homem-mulher-filho: desenhos feitos de ferrugem e carvão.
Naqueles ermos: nada amanhece realmente.

O menino suga o peito minguado da mãe.
A esposa está com as carnes mais moles do que era o costume.
Desinchou.
Não busca mais Deus na sujeira.

É mãe agora.

O marido terá que inventar um novo desejo.
Lembra-se da porca que fugiu do curral.
As orelhas do filho lhe parecem estranhas, mais brancas que o corpo.

- Nosso filho tem um nariz tão bonito, olha! diz a mulher - diferente. As orelhas também. Nosso filho será homem de botar inveja nos outros por tanta beleza.

O marido sai. Precisa achar a porca fujona.

13 Maio 2009

Paraíso, ou o amor pode ser uma piada

Aninha se engraçou com o pedreiro Iso. Mãos fortes, pegadoras de tijolos e carnes fêmeas. À noite, toda a vizinhança pode ouvi-los. É um corre corre: ele dizendo eu vou te erguer feito parede perfeita; ela, rindo, geme, pede não pedindo: para Iso, para Iso...

08 Maio 2009

Capítulo I

A casa pequena.
Ao fundo, uma coivara abandonada.

Deus está no pó, rezava a mãe desde que se soube grávida.
Nove meses sem limpar a casa.

Alinhar à esquerda
O marido, resignado, cuidava dos porcos.
Gritos.

Finalmente o chão seria varrido.

Nos confins de uma quinta-feira, a criança nasceu.

a série

Inauguro hoje uma série escrita num poema-conto. Os capítulos serão postados uma vez por semana. Conto com o olhar dos hóspedes habituais dessa casa.

02 Maio 2009

Lulo Scroback - Por um Triz ( música de Gui - Rodrigo Pitta - Tchorta Boratto)

Acordei. Algo na memória. Era uma música. Há muito ouvida. Como tudo está preso na rede, eis a música que resgatei do meu passado.

Quer salvar sua vida?

http://preludioaohomemdepalha.blogspot.com/

Douglas D. e seu não livro Prelúdio ao Homem Palha

Novela Mexicana

Cristóbal morreu ontem. Diagnóstico: um amor desvairado por Esperanza, a porca.

19 Abril 2009

Croniqueta da vida cotidiana

- Preciso vender a geladeira e o freezer.
- Por quê?
- Ando com umas idéias.
- Que idéias?
- Minha mulher, eu olho aquilo vindo, aquilo pedindo, aquilo dizendo é hoje bem!
- E...?
- E daí que eu vou matar a vaca, pico toda, boto no congelador por uns tempos, depois vou me desfazendo aos poucos... plano perfeito, não acha?
- É bom, sem dúvida, mas porque vender a geladeira e freezer?
- Tem os quatro filhos, vou ter que fazer o mesmo, não vai caber tudo na geladeira e no freezer que eu tenho. Vou comprar uns maiores.
- Eu compro o freezer. Lá em casa é só a mulher e a sogra anã. Acho que cabe tudo nele.

Croniqueta da vida política

Homero é homem macho antes de ser político. Deu cinco tiros no adversário durante um debate. Não gostou do sorrisinho desrespeitoso do outro pra cima da futura secretária da educação e cultura, Marilda, sua amante e cunhada. Atualmente, Homero administra a cidade da cadeia. Marilda trocou de partido e se engraçou com um vereador da oposição. Homero está apenas esperando sair da cadeia para resolver, bem resolvido, mais essa situação.

05 Abril 2009

Convite - Poetas de hoje em diante


Estou nessa também. Aos de Florianópolis e São Paulo fica o convite


O Governo do Estado de Santa Catarina, a Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, a Editora Letras Contemporâneas, os colaboradores Jayro Schmidt (introdução) e Eduardo Jorge (prefácio) e os 21 poetas de hoje em diante convidam para o lançamento da coletânea XXI POETAS DE HOJE EM DIA(NTE) que acontecerá nos dias 18 de abril de 2009, às 20h na Barca dos Livros - Lagoa da Conceição - Florianópolis e 23 de maio de 2009, às 19h30 no Bar do Batata - Jardins - São Paulo.